Em Defesa da Família Cristã

Nos conhecemos na cidade em que estudávamos. Sua família era de outra cidade, assim como a minha.
Era nosso pequeno refúgio, onde podíamos conviver com certa liberdade, espaço e tranquilidade, para sermos nós mesmos, fazermos o que quiséssemos, permitindo nos aproximar, nos conhecer cada vez mais, e explorar o sentimento que havia, ou que poderia haver.
Você era, e certamente ainda é, cristã. Eu era espiritualmente indeciso, mas aberto à ideias e novas perspectivas. Não era ateu, mas também nada próximo de qualquer crença. Não compreendia muitas coisas que permeavam a religião, sendo um terreno relativamente desconhecido para mim.
A princípio, isso não parecia ser um grande impedimento para você. Assim como definitivamente não era para mim. Por isso nos abrimos um ao outro, você para falar e ensinar, e eu para ouvir e questionar.

Você me apresentou aos pontos básicos de sua crença, me deu uma bíblia, que ainda guardo, e me acompanhou aos grupos de oração de jovens.
Eu lia a bíblia, lia outros conteúdos, fazia algumas anotações, refletia e questionava à respeito. Após ter passado anos com uma forma de enxergar a vida e refletir sobre as questões existenciais, não era exatamente fácil assimilar de imediato tudo que você me apresentava.
Mas eu gostava de você, eu te admirava, e por isso, por de certa forma confiar em você, acreditava que haveria boas razões para pensar como você pensava. Assim embarquei, à meu modo, na missão de tentar, de verdade, me aproximar do que era tão importante para você.
Queria dar uma chance honesta para isso. Sabia que não seria fácil, não seria rápido, mas, por você, eu sairia de minha zona de conforto e tentaria algo novo, que pudesse me levar para mais próximo de você.

No começo, você aparentemente gostou dessa postura. Estava sempre disposta a argumentar, discutir, ouvir. Acho que gostava da ideia de estar me "evangelizando".
Eu tinha resistências, confesso. Mas eu estava tentando.
Porém, em algum ponto, tentar já não parecia mais ser o suficiente. Era preciso conseguir. E a impaciência começava a surgir, trazendo as dúvidas à respeito da minha capacidade e esforço para isso. Dúvidas sobre a capacidade da minha fé.
Eu poderia simplesmente dizer "sim" à sua religião, por dizer. Poderia "aceitar" seu salvador, por aceitar. Poderia proferir palavras, da boca pra fora, que deixariam todos satisfeitos... todos menos eu mesmo.
Mas eu não conseguia dizer por dizer, sem sentir de verdade o que dizia. Não conseguiria mentir para mim mesmo, ou para você.
Afinal, eu era sincero com você em tudo, assim como ao sentir profundamente a emoção ao responder sua pergunta dizendo que meu coração era seu, durante uma tarde de amor, que aliviava seus desejos reprimidos e aumentava seu peso na consciência por fazer algo proibido pela sua religião.

Após um tempo, a impaciência crescia, pois eu "já deveria ter mudado". Creio que perdi o potencial aos seus olhos, e não aparentava mais ser o "namorado perfeito" como havia sido dito, no começo.
Eu era uma pessoa real, imperfeita, assim como você. Com coisas em comum, e obviamente com diferenças, sendo que, cada vez mais, você ressaltava essas.
O tempo corria contra nós, pois conforme se aproximava o fim de nossos estudos, aumentava o esforço para encontrar um ponto de conforto entre nossas crenças e descrenças.

Até então, vivíamos uma experiência inteiramente nossa, oculta de sua família. Conforme você disse, seus pais eram rígidos, e provavelmente criariam muitos obstáculos - para dizer o mínimo - se soubessem que estava se relacionando com um "não crente".
Continuamos postergando o inevitável, até que precisássemos realmente considerar uma outra ação. Logo não teríamos mais nossa "Paris", você estaria integralmente de volta à casa de seus pais e precisaríamos lidar com uma nova rotina, com novas regras.
Você já tinha me contado algumas ações passadas de seus pais, interferências em sua vida pessoal, em relacionamentos anteriores, que me alertaram quanto às dificuldades que viriam. Mas eu me dispus a enfrentá-las, pois eu queria sua companhia, queria fazer parte de seu mundo, queria seu amor. Queria ser quem superaria o que fosse, para estar ao seu lado.

Comecei à ir aos cultos de Domingo com você. Eu tinha que fazer realmente um esforço de deslocamento nesses dias para estar ao seu lado. Logo, se tornou o único momento da semana que tínhamos juntos: do início ao final do culto.
Não sabia bem o que esperar, mas, até para minha surpresa, encontrei um lugar acolhedor, onde muitas das palavras proferidas me tocavam de alguma forma, me faziam bem. Não demorou para eu não me sentir um completo perdido naquele lugar, ao descobrir sobre um casal que comparecia aos cultos com frequência, há anos, sendo a esposa evangélica, mas o marido ainda não. Eu apontei isso para você, mas acho que você não apreciou muito essa observação.

Era verdade que eu sentia falta de antes, sentia falta do que tínhamos, sentia falta de um simples beijo que mal conseguíamos mais ter. Foi difícil, mas eu acreditava que era um sacrifício que se justificaria, que seria para um bem maior, que esse esforço poderia me fazer desenvolver o que eu precisaria para estar mais ao seu lado, e que essa fase seria superada para nos tornarmos mais íntimos, e sermos algo mais forte em breve.

Eu acreditei nisso.

Creio que inicialmente você não tenha dito aos seus pais que estivesse sendo acompanhada por alguém, e muito menos que eu ainda não era um crente. Aos poucos, conforme foi se estabelecendo essa nova rotina de cultos em um horário que não costumava ir antes, fez com que você "preparasse o terreno" para dizer que havia alguém que a acompanhava.
Não tardou muito para que seus pais me convidassem para um almoço de Domingo. Eu estava razoavelmente tranquilo, creio que mais do que você. Certifiquei-me de que eles sabiam que eu não era ainda "totalmente" um crente. Não conseguiria passar uma falsa impressão diante de um ex-pastor.
O almoço transcorreu até que positivamente. Não fui destratado, pelo contrário, fui bem recebido. Andamos pelo seu condomínio à tarde. Já não me lembro mais sobre o que conversamos, mas lembro que me mostrou onde costumava ter uma árvore em que brincava quando era criança. Lembro de corrermos um pouco, e de sentarmos debaixo de uma árvore, com você mexendo naquele joguinho que ambos jogávamos naquela época.

Uma vida inteira naquele lugar, e me disse que era o primeiro "namorado" a levar para conhecer seus pais, depois de muito tempo. Considerei isso um bom sinal, dado que havia sido bem recebido.
O fato é que, nos "bastidores", você e sua mãe discutiam muito. Era um jogo de imposição, de respeito mediado pela obrigação bíblica de ouvir o que os pais mandam, por meio de uma falta de comunicação leve e aberta entre pais e filhos, o que trazia muita aflição e sensação de sufocamento em sua posição na hierarquia familiar, que era basicamente atender aos desejos dos pais e ser supervisionada o tempo todo.

Como não havia mais sido convidado para um novo almoço de final de semana, continuei a vendo nos cultos de Domingo.
Havia a sensação de que havíamos estagnado. Se no começo a intenção era para prestar atenção no culto para aprender mais, agora eu praticamente procurava prestar atenção em você, pelos poucos instantes que tínhamos, e procurar segurar sua mão escondido debaixo da bíblia.
Eu arriscaria dizer que seus pais apostaram que eu iria desistir, mas, as semanas passavam, e eu continuava indo lá.

Às vezes eu chegava antes de você, às vezes depois. Um dia eu cheguei antes, entrei e me sentei num dos bancos. O culto começou, e você não havia ainda chego. Eu fiquei um pouco preocupado, pois nunca havia demorado assim. Fiquei com o celular em mãos, como que por um pressentimento. Não demorou muito, ele tocou e era seu número.

Eu sai rapidamente e atendi. Era uma outra voz na linha... era sua mãe. Eu perguntei se estava tudo bem com você, se havia acontecido algo. Ela ficou um pouco desconcertada por um instante, mas disse que sim, estava tudo bem, mas logo mudou o tom da voz, e me disse que não estava gostando como eu estava tratando a filha dela.

Eu fiquei um pouco sem reação diante de uma fala inesperada dessa, e ela prosseguiu: "ela não é uma dessas moças do mundo aí fora". Ela disse para que se eu realmente quisesse, a partir de agora, teria que tratá-la direito e ir até a casa de vocês, onde conversaríamos a respeito. Obviamente, isso não foi dito num tom de "convite receptivo", e sim mais como uma provocação e desafio. Eu disse que basicamente apenas nos víamos durante os cultos, então como poderia estar tratando você "errado" dessa forma? Ela respondeu a esse questionamento assim: "fique calado enquanto eu estiver falando" e continuou: "não acho que sua mãe tenha te criado para você agir dessa forma".
Houve algumas coisas a mais durante essa "conversa", mas, falar de como minha mãe me educou foi a gota d'água. O tempo não faz mais me lembrar exatamente das palavras, mas eu respondi algo não muito diferente disso: "o que ela me ensinou foi a não aceitar que me dissessem o que eu não mereço ouvir". Disse isso sem ofensa, sem grosseria, mas foi o primeiro ato de "confrontamento" a forma com que sua mãe vinha tentando me provocar até então. Acho que ela não gosta de ser contrariada.

Ela respondeu: "quer saber? vá a merda, vá a merda". Em alto e bom tom.

Mais do que ofendido, eu me senti até confuso por aquela situação. Diante de tudo que eu poderia ter dito, e descontado na "mesma moeda", um momento de clareza me invadiu, e serenamente eu respondi:

"Para uma pessoa que se diz cristã e defende esses modos, você acha que Jesus aprovaria a forma como você está me tratando?"

Isso deve ter atingido ela em cheio, pois ela não conseguiu dizer mais nada além de levantar a voz e só continuar dizendo: "vá a merda, vá a merda".

E eu desliguei o telefone.

Voltei para casa, amassei e joguei fora o panfleto do culto, e soube naquele instante que nunca mais voltaria a pisar naquela igreja, e provavelmente a nem te ver mais.


A única satisfação que me restou dessa experiência foi em não ter baixado o nível, cedido às provocações e até ofensas diretas de sua mãe, e não ter dado à ela uma justificativa de um afastamento forçado que sua mãe procurou instigar. Ela criou a situação, impôs circunstâncias, pintou uma imagem minha a seu bel-prazer, provocou, e mesmo assim não obteve de mim o que queria, ou o que esperava de alguém não-cristão, conforme sua imaginação. Porém, como sempre foi em sua vida, com ou sem justificativas sensatas, a vontade de sua mãe prevaleceu.

Decepcionou-me sua fraqueza, sua submissão diante de uma situação dessas, e a aceitação de escolhas pessoais da sua vida, feita por outras pessoas, mesmo sendo seus pais. Você não era mais uma criança, nem mesmo uma jovem inexperiente, mas tinha sua vida supervisionada como tal, ou até pior. Tinha horário de uso de computador, limite de uso do celular (quando não tinha que deixá-lo com seus pais), controle para sair de casa. Mas essa era sua vida, há vários anos, e, por isso, eu até entendi sua resignação.

Eu compreendi o que você vivia, da pior forma. Talvez eu tenha sofrido só um pouco, de tudo pelo que você já havia passado ao longo de sua vida.

Ainda mantivemos um certo contato - à distância, como sempre - por um bom tempo, com vários longos hiatos nesse meio. Confinada na bolha familiar, e distante de mim, você reforçou algumas crenças - misturando com um pouco do que vivemos no passado - e esperava que eu retornasse, como alguém de sucesso estabelecido - um bom "provedor", como na linguagem cristã - e devidamente evangelizado. Achava que assim eu conseguiria te resgatar do aprisionamento desse castelo.

Você esperava que, sozinho, eu atravessasse um deserto desconhecido, que eu só conseguia achar o rumo por tê-la como guia ao meu lado.
Pois foi assim que me senti, abandonado. Deixado pra trás, e ainda cobrado para que me virasse, que obtivesse sucesso.

Eu esperava que você lutasse mais contra isso. Mas você fez uma escolha. Você se rendeu aos termos impostos.

Você queria que eu mudasse. E eu só queria que você me aceitasse como eu era.

Essa situação me arrastou para um de meus anos mais obscuros. Mas que, depois que me levantei, me trouxe uma das épocas mais construtivas pessoalmente. Inicialmente, houve a estranheza em voltar a me sentir bem sem tê-la ao "lado" (mesmo que a distância), mas trouxe a confirmação de que não havia mais o que pudéssemos fazer um pelo outro.

O tempo que se seguiu trouxe diversos contatos esporádicos entre a gente. Alguns marcados por uma maior saudade. Uns duraram mais, outros menos. Em outros não terminamos bem a conversa. Mas, nos últimos, me trouxe uma percepção: Nos tornamos aquilo que você tinha dito que mantinha com seus ex's, e que eu disse certa vez que jamais seríamos se terminássemos: amigos. Entre o rapaz que não mantinha contato com nenhuma ex, e a moça que mantinha boa relação com seus ex, você venceu. E eu me tornei mais um em sua memória.

Não nos falamos mais com frequência, as vezes até meses se passam entre nossos contatos, e quando eles vem, normalmente duram um dia, para saber como as "coisas estão".
E depois de tudo, nos resumimos à isso. Mas talvez tenha sido para o melhor. Talvez tenha sido a saída nos minimizar em um contato amigável ocasional, do que um amor passado mal resolvido.

Por mais que tenhamos conversado após tudo isso, sobre nós, sobre cada um, acho que você nunca saberá mesmo o quanto eu mudei. Só não foi da forma que você queria. E acho que também nunca saberei de fato o que isso teve de impacto para você. Mas, se restasse algo a te desejar, é que você mudasse também, de uma forma que te tornasse protagonista de suas escolhas, te tornasse mais feliz, que permita alcançar os sonhos e ambições que sempre me contou.

"Se liberte do que te prende para se agarrar ao que te liberta"

Sei que nunca mais voltarei a fazer algo por alguém como isso que fiz por você: Me distanciar de mim mesmo para estar mais perto de alguém. Mas de qualquer forma, não foi algo ruim de ter passado. Pois enquanto a tinha ao meu lado, acho que teria gostado até se tivesse me levado à um culto satanista (ironia).

Sim, meu humor duvidoso e piadas bobas ainda continuam. Que era algo que você não gostava tanto, diga-se de passagem. Mas confesso que outro dia, ouvindo uma música humorada de tema amoroso, que eu poderia ter enviado para outras pessoas, eu senti mesmo vontade de enviá-la para você, como costumava fazer com coisas "bobas", mesmo sabendo que você não iria gostaria tanto. Nisso que residia um pouco da graça do que eu fazia. Te provocar, te instigar, para me aproximar. Meio complicado explicar isso, e também não importa mais, já que você não entendia muito bem isso na época em que realmente faria alguma diferença, e considerava como mais um dos meus defeitos e diferenças entre a gente.

Não sei se você pensa sobre aquele dia em que não nos vimos na sua igreja. Se tivéssemos nos visto, se continuássemos juntos, o que poderia ter acontecido? Talvez eu pudesse ter me tornado cristão. Talvez eu fosse te "afastar" da igreja como é o temor de todos os crentes diante de alguém "do mundo". Eu não sei. Só sei que, independente de qualquer caminho que seguisse, naquela época, enquanto ao seu lado, eu seria feliz.

Custou muito reencontrar um caminho sem você. Mas sempre há uma estrada para percorrermos somente nós mesmos. E eu percebi, que na verdade, esse é o caminho mais fácil e seguro, que sempre estará aberto para voltarmos à trilhá-lo e nos reencontrarmos após termos nos aventurado e nos perdido em outros caminhos... ou nos caminhos dos outros.

Espero que esteja em seu próprio caminho. E se os nossos nos levarem para diferentes destinos, se o seu te levar para o céu cristão e o meu para qualquer outro lugar, de forma que nunca mais, nem mesmo em outra vida, nos reencontremos, saiba que desejo toda a felicidade que possa ocupar em seu coração. Toda a felicidade que um verdadeiro amigo, que um dia te conheceu intimamente, possa te desejar.

Eu segui no mundo em que nos encontramos uma vez.
Nunca vi o mundo do qual disse vir e para o qual voltou,
só o conheço pelo que me contou.
Você deixou a garantia do presente, pela incerteza do futuro.
Eu vivo pela brevidade do tempo que nos é certo,
em detrimento da eternidade de nossa imaginação.
Te apresentei tudo o que um homem equilibrado tem a oferecer:
Um laço forte para alguém poder se agarrar firme hoje,
ao invés da vaga promessa de uma salvação no amanhã.
Há tantos contrastes quanto podem haver no discurso de amor e fé,
em suas teorias e práticas.
E o que era presente virou passado, e o futuro nos chegou hoje,
tão rápido quanto a vida, que passa indiferente às escolhas e crenças.
Após a entrega por um "bem maior", só resta se prender à convicção.
Se não há tempo para o amor, não deve haver para o arrependimento.
E quando finalmente chegar o dia esperado,
que seja para valer o sacrifício de todos os demais.

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